Críticas desse música tão ostracizada e renegada...

sábado, outubro 30, 2004

Toy - "É Só Sexo"



António Ferrão é possivelmente o maior nome da música popular portuguesa da última década. Toy entra-nos pela cabeça dentro em meados dos anos 90 com o seu mítico sucesso "Chama o António". O refrão simples e orelhudo ("se queres dançar e não tens par chama o António, chama o António") tornou-a numa canção de referência, parte do imaginário popular de todos nós.
Toy amadureceu. O seu mais recente trabalho É Só Sexo tem uma forte conotação politica. Segundo o próprio o título tem a ver com a frase "dizes que é amor mas é só sexo" mas usada no sentido de dizer que os polítcos só nos querem bem e nos amam mas no fundo só nos sabem "foder". Toy assina uma magistral peça de sabedoria musical e lírica, com uma componente política muito forte mas ao mesmo tempo uma clara obra de cariz sexual tendo ainda tempo para falar da cultura musical americana no tema "Sado Masoquismo", que encerra, com chave de ouro, um dos mais notáveis albuns de Toy.

Toy - É Só Sexo
EMI - 2004

Classificação - 7/10

segunda-feira, outubro 18, 2004

Jose Malhoa - Baile de Verão



De todos os artistas que povoam o panaroma musical português José Malhoa é, sem dúvida, um caso de sucesso inegável. Longe vão os tempos de 24 Rosas, tempos em que a filha de José Malhoa ainda tinha decência (e um nome só com um "n") e José Malhoa era uma referência incontornável.
Nos dias que correm José Malhoa continua a fazer magníficos discos de óptimas canções. Mas falta-lhe o reconhecimento.
Sobre Baile de Verão há pouco a dizer. Malhoa volta a trazer-nos um rol de 10 de canções de Amor tão poéticas e adultas como brejeiras e adolescentes. Mais do mesmo? Não. Em cada album novo José Malhoa reinventa-se e renova-se. Sempre adaptando-se ás novas tendências José Malhoa é um visionário, um homem à frente no seu tempo.
O single, título do album, Baile de Verão é uma deliciosa canção sobre o começo de uma relação num meio rural. A alusão ao apoio do padre ("e toda a malta gritou, até o padre ajudou: aperta aperta com ela") diz bem do conhecimento que Malhoa tem do Amor rural e de como a Igreja ainda é tão importante nesses meios menos evoluídos. Mal de Amor (Desde que ela foi) é um tema que fala de perda e da saudade, esse sentimento sempre presente na música popular portuguesa.

José Malhoa - Baile de Verão
ESPACIAL - 2004

Classificação - 8/10


segunda-feira, outubro 11, 2004

Diapasão - "A Bela Portuguesa"

Talvez um dos mais aclamados temas da cultura popular portuguesa, esta música é suficientemente cativante e alegre para convidar qualquer traunseunte num raio de quilómetros à dança entusiástica. Talvez por isso seja repetida vezes sem conta na grande maioria dos arraiais e festas populares por esse país fora, apesar de já ter alguns anos.

Na sua melodia transparece uma óbvia maturidade musical, alcançada pelos Diapasão após longos anos de carreira. É cristalina a expressão melódica de um timbre simultaneamente vindicativo (oriundo das dificuldades sentidas nos seus anos verdes) e satisfeito-confrmista (devido ao atingir dum zénite musical inquestionável).

Comovem o saudosismo e o amor patentes em "A Bela Portuguesa", remetendo o ouvinte a memórias nostálgicas dos seus tempos de emigrante, e extasiando audiências ao ponto de as levar ao choro. É o hino do emigrante apaixonado e morto de saudade, essa palavra tão tipicamente portuguesa.

Outra importante característica deste tema é a dulcificação da "Bela" mulher "Portuguesa", em detrimento das outras nacionalidades ("já corri mundo e não encontro outra igual com quem eu queira ficar / a mais formosa, mais gostosa das mulheres que Deus pode criar"). Graças a isto foi gerado o velho mito urbano acerca da escolha deste tema para a compilação de hinos do Partido Nacional Renovador (PNR), que nunca chegou a ser consumado porque parece que entretando eles ganharam juízo.

No geral, é um tema agradável e alegre, apropriado para levantar a moral se não nos entregarmos à sua conotação nostálgica. Por isso, pézinho às dez para as duas e...

in A Bela Portuguesa, VIDISCO, 1994


Classificação: 8/10

domingo, outubro 10, 2004

Quim Barreiros - "A garagem da vizinha"

Quim Barreiros, o Rei, é, indubitavelmente, um dos grandes ícones consensuais e incontestáveis do panorama pimba nacional. Como o leitor certamente estará ao corrente, as suas músicas são como que toda uma vertente ultra-escatológica da língua de Camões fosse estampada numa partitura. Influenciou postumamente bandas mais hard-core e doutros géneros musicais, como os ex-Irmãos Catita (Ena Pá 2000), Mata Ratos, e Comme Restus, apenas para citar alguns exemplos.

O tema do título versa o seguinte:
"
Lá na rua onde eu moro
Conheci uma vizinha
Separada do marido
E está morando sozinha
Além dela ser bonita
É um poço de bondade
Vendo meu carro na chuva
Ofereceu sua garagem
Ela disse ninguém usa
Desde que ele me deixou
Dentro da minha garagem
Teias de aranha juntou
Põe teu carro aqui dentro
Senão vai enferrujar
A garagem é usada
Mas teu carro vai gostar

REFRÃO
Ponho o carro, tiro o carro
A hora que eu quiser
Que garagem apertadinha
Que doçura de mulher
Tiro cedo, ponho à noite
E ás vezes à tardinha
Estou até mudando o óleo
Na garagem da vizinha

Só que o meu possante carro
Tem um bonito atrelado
Que eu uso pra vender cocos
E ganhar mais um trocado
A garagem é pequena
O que é que eu faço agora
O meu carro fica dentro
Os cocos ficam de fora
A minha vizinha é boa
Da garagem vou cuidar
Na porta o mato cresceu
Dei um jeito de cortar
A bondade da vizinha
É coisa de outro mundo
Quando não uso a da frente
Uso a garagem do fundo

REFRÃO
"
»»ouvir refrão

É desta forma que o Rei expõe todo um carácter libidoso masculino, ao jeito da imagem felliniana do macho latino. As colunas transpiram e exalam o cheiro a cavalo do macho, como que num pranto pela beleza musical.

Esta maneira eufemizada de expor a realidade brejeira, colocando-os apenas ao alcence das mentes mais maduras (acima dos 10 anos, naturalmente; é Quim Barreiros, não Wittgenstein), evoca claramente a Alegoria da Caverna. Platão corre nas veias do Rei, e isso torna-se evidente em, por exemplo: "quando não uso a da frente / uso a garagem do fundo", que é um par de versos de significado inacessível aos espectadores do teatro de sombras no fundo da caverna; estes imaginam de facto uma casa com duas garagens. Apenas aqueles que já saíram da caverna e viram o sol sabem, de facto, aquilo a que o Rei de refere.

Será talvez apropriado atribuir um certo grau enfático ao manifesto complexo Freudiano relacionado com o tamanho de seu próprio sexo, pela declaração autogalardoante do inverso: "só que o meu possante carro".

No geral é um tema consistente, de fácil memorização, óptima pera karaoke devido à ausência de tons quer muito graves quer muito agudos (tornando-a acessível mesmo às piores vozes) e com uma melodia viciante.

Recomendo-a no volume máximo por volta das 10 horas da manhã, num festival de Verão, aleatoriamente o Sudoeste. A adesão é garantida e não tardarão os gritos de júbilo e alegria, também eles eufemizados, pois claro, ao jeito de Quim Barreiros.


in A Garagem da Vizinha, CDSETE, 1995


Classificação: 7/10

sexta-feira, outubro 08, 2004

Tony Carreira - Ao Vivo No Pavilhão Atlântico



Gravado ao vivo no passado dia ..... de ....... de ...... no Pavilhão Atlântico, este álbum comemora os 15 anos de "Cantor de Sonhos" do "Mestre" Tony. Ao longo dos 2 CD's (ou do DVD, consoante o suporte preferido) é notório o amadurecimento musical de Tony e a beleza melódica de todas as suas músicas. Destaque para a versão de "Sonho de Menino", verdadeiro clássico moderno e obra crucial da longa carreira de Tony. O solo de saxofone a seguir à 2ª estrofe é de levar ás lágrimas até o menos fanático.
O album facilmente chegou ao top nacional de vendas com uma permanência de 30 semanas nos 5 primeiros lugares e uma quádrupla platina.
Apesar de representar o expoente máximo da obra de Tony Carreira a nível de vendas, "Tony Carreira - Ao Vivo No Pavilhão Atlântico", não é mais do que o simples album ao vivo da consagração. Mais sensasionalista e espectacular que o album ao vivo no Olympia de Paris mas contudo ligeiramente inferior. Em "Ao Vivo No Olympia" a música de Tony está mais crua, mais fria, menos trabalhada. E é isso que faz de Tony Carreira uma peça chave da música portuguesa da década de 90: a frieza com que escreve canções que ao mesmo tempo primam pelo romantismo e pelo patriotismo.
Bem hajas Tony!

Tony Carreira - Ao Vivo No Pavilhão Atlântico
ESPACIAL/M.M.FLAVIENSE - 2003

Classificação: 6/10