Críticas desse música tão ostracizada e renegada...

domingo, outubro 10, 2004

Quim Barreiros - "A garagem da vizinha"

Quim Barreiros, o Rei, é, indubitavelmente, um dos grandes ícones consensuais e incontestáveis do panorama pimba nacional. Como o leitor certamente estará ao corrente, as suas músicas são como que toda uma vertente ultra-escatológica da língua de Camões fosse estampada numa partitura. Influenciou postumamente bandas mais hard-core e doutros géneros musicais, como os ex-Irmãos Catita (Ena Pá 2000), Mata Ratos, e Comme Restus, apenas para citar alguns exemplos.

O tema do título versa o seguinte:
"
Lá na rua onde eu moro
Conheci uma vizinha
Separada do marido
E está morando sozinha
Além dela ser bonita
É um poço de bondade
Vendo meu carro na chuva
Ofereceu sua garagem
Ela disse ninguém usa
Desde que ele me deixou
Dentro da minha garagem
Teias de aranha juntou
Põe teu carro aqui dentro
Senão vai enferrujar
A garagem é usada
Mas teu carro vai gostar

REFRÃO
Ponho o carro, tiro o carro
A hora que eu quiser
Que garagem apertadinha
Que doçura de mulher
Tiro cedo, ponho à noite
E ás vezes à tardinha
Estou até mudando o óleo
Na garagem da vizinha

Só que o meu possante carro
Tem um bonito atrelado
Que eu uso pra vender cocos
E ganhar mais um trocado
A garagem é pequena
O que é que eu faço agora
O meu carro fica dentro
Os cocos ficam de fora
A minha vizinha é boa
Da garagem vou cuidar
Na porta o mato cresceu
Dei um jeito de cortar
A bondade da vizinha
É coisa de outro mundo
Quando não uso a da frente
Uso a garagem do fundo

REFRÃO
"
»»ouvir refrão

É desta forma que o Rei expõe todo um carácter libidoso masculino, ao jeito da imagem felliniana do macho latino. As colunas transpiram e exalam o cheiro a cavalo do macho, como que num pranto pela beleza musical.

Esta maneira eufemizada de expor a realidade brejeira, colocando-os apenas ao alcence das mentes mais maduras (acima dos 10 anos, naturalmente; é Quim Barreiros, não Wittgenstein), evoca claramente a Alegoria da Caverna. Platão corre nas veias do Rei, e isso torna-se evidente em, por exemplo: "quando não uso a da frente / uso a garagem do fundo", que é um par de versos de significado inacessível aos espectadores do teatro de sombras no fundo da caverna; estes imaginam de facto uma casa com duas garagens. Apenas aqueles que já saíram da caverna e viram o sol sabem, de facto, aquilo a que o Rei de refere.

Será talvez apropriado atribuir um certo grau enfático ao manifesto complexo Freudiano relacionado com o tamanho de seu próprio sexo, pela declaração autogalardoante do inverso: "só que o meu possante carro".

No geral é um tema consistente, de fácil memorização, óptima pera karaoke devido à ausência de tons quer muito graves quer muito agudos (tornando-a acessível mesmo às piores vozes) e com uma melodia viciante.

Recomendo-a no volume máximo por volta das 10 horas da manhã, num festival de Verão, aleatoriamente o Sudoeste. A adesão é garantida e não tardarão os gritos de júbilo e alegria, também eles eufemizados, pois claro, ao jeito de Quim Barreiros.


in A Garagem da Vizinha, CDSETE, 1995


Classificação: 7/10

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